sábado, 11 de abril de 2015

Et misericordia a progenie in progenies timentibus eum - E sua misericórdia dura de uma geração a outra, para os que o temem



"(...)Após haver cantado sobre si mesma e seus bens divinos e honrado Deus, Maria passa a fazer um passeio por todas as obras de Deus realizadas em todas as pessoas. Ela também canta sobre elas. Ensina-nos a reconhecer devidamente as obras, o caráter, a natureza e a vontade de Deus. Muitas pessoas e filósofos extraordinariamente inteligentes também se ocuparam com isso. Queriam saber quem é Deus. Escreveram muitos livros a respeito, com opiniões diferentes. Mas todos ficaram cegos nesta experiência e não descobriram a verdadeira visão. Na verdade, a maior coisa no céu e na terra é conhecer Deus realmente, se é que isso pode ser permitido a alguém. A mãe de Deus ensina isso muito bem, se alguém estiver disposto a entendê-la. Mas como conhecer Deus melhor do que em suas próprias obras? Quem realmente reconhece suas obras não pode errar no conhecimento de sua natureza, vontade, de seu coração e mente. Por isso é uma arte conhecer suas obras. Para entender melhor, Maria cita seis obras divinas em seis categorias de pessoas, nos quatro versículos seguintes, dividindo o mundo em duas partes. Em cada lado há três obras e três categorias de pessoas. Uma parte está sempre em posição contrária à outra. Então Maria mostra o que Deus fez em ambas as partes e revela isso de uma forma muito fiel (...).

A primeira obra de Deus: a misericórdia

A respeito da misericórdia, o versículo diz: "Sua misericórdia dura de filho para filho, para aqueles que o temem". Maria começa com o mais nobre e importante: os bens espirituais internos, que tornam as pessoas mais arrogantes, orgulhosas e teimosas. Não há ser humano rico, não há ser humano poderoso tão arrogante e audacioso quanto um pretensioso que acha que tem razão, que entende das coisas e que se considera mais sábio do que os outros. Principalmente quando tem que ceder ou admitir que não tem razão, ele se torna muito grosseiro e revela muita falta de temor de Deus. Ele ousa gabar-se de não poder errar, que Deus está a seu lado e os outros são diabólicos. Ele se atreve a invocar o juízo de Deus e, se tiver autoridade e poder, avança cegamente, atravessa a parede de cabeça, persegue, condena, blasfema, mata, expulsa e destrói todos os que são contra ele e depois declara que o fez para servir e honrar Deus. Tem tanta certeza e está tão convencido de uma gratidão e recompensa perante Deus, que nem os anjos do céu têm tanta certeza (...).
Esta é a primeira obra de Deus: ser misericordioso para com todos os que estão prontos a renunciar espontaneamente suas convicções, sua justiça, sua sabedoria e todos os bens espirituais e a ficar pobres de espírito, de livre vontade. São estes os que realmente têm medo de  Deus: não se consideram dignos de coisa alguma, por menor que seja; apresentam-se nus e desprevenidos diante do mundo. Os bens que possuem consideram como algo que lhes foi concedido apenas por graça, sem merecimento algum. Fazem uso deles com louvor, gratidão e medo, como se fossem bens alheios. Não buscam a própria vontade, prazer, louvor, nem honra, mas somente os daquele ao qual pertencem (...)". (Dr. Martinho Lutero). Os grifos são meus. 
Vídeo extraído do Youtube.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DE VOLTA AO LAR






"Vê que proponho hoje a vida e o bem, a morte e o mal. Se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o Senhor, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então viverás e te multiplicarás, e o Senhor, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que, certamente, perecerás; não permanecerás longo tempo na terra à qual vais, passando o Jordão, para a possuíres. Os céus e a terra, tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência" (Deuteronômio 30:15-19).
Aqui Deus apresenta a Moisés duas possibilidades: vida e morte. Vida para quem obedece seus mandamentos. Morte para quem não os obedece.
De fato, a morte é consequência da desobediência a Deus, porque tudo o que ele nos propõe é vida. Não devemos enxergar os mandamentos divinos como arbitrariedades, mas como direcionamentos para que sejamos bem-aventurados, através da prática do amor.
Os mandamentos de Deus também nos apontam a maldade que temos em nosso coração e que desconhecemos. Deus não nos quer alienados. Muito pelo contrário, ele nos quer conscientes de nossos atos e posturas, para que possamos melhorar. 
Ao conjunto dos mandamentos damos o nome de Lei. 
Essa Lei foi inscrita por Deus em todo coração humano (Romanos 2:14-15). É por isso que todo ser humano sabe quando erra e quando acerta. Sua consciência o acusa, quando pratica o mal. Por outro lado, ela o recompensa, quando faz o bem. 
Mas questiono: Por que nos é prazeroso fazer o bem? Porque uma coisa é ter a Lei inscrita no coração, outra coisa é sujeitar-se ao poder dela. Há algo que nos leva a querer fazer o bem e a fugir do mal, que nos sujeita a essa lei interior.
Para entendermos de onde vem esse desejo é necessário retroceder à origem do pecado humano.
De acordo com o relato bíblico, Deus criou os dois primeiros seres humanos: Adão e Eva. Concedeu-lhes uma linda vivenda, que chamou de Éden: um imenso jardim, cheio da ternura de Deus em cada criatura. 
Adão e Eva foram obviamente criados sem o pecado, como os anjos. Tudo neles era reto e bom, porque possuíam não só a Lei interior, mas Justiça interior. 
No jardim do Éden, algo era mais sublime que sua beleza estética e perfeita harmonia: todos os dias ele era visitado por Deus, que é a verdadeira beleza, de onde procedem todas as outras. Logo, a beleza inefável de Deus inebriava o coração e a mente de Adão e Eva. 
Éden foi um local de profunda comunhão entre Deus e homem.
Deus deixou ali duas árvores: a árvore do conhecimento do bem e do mal, cujo fruto não deveria ser comido por Adão e Eva, e a árvore da vida.
A proibição de Deus parece ter aguçado a curiosidade desse casal. Foi então que o diabo os tentou, dissuadindo-os de que Deus não pensava neles, mas em si mesmo, quando os proibiu de comer o fruto do conhecimento do bem e do mal.
Naquele momento, houve uma quebra na confiança em Deus. Adão e Eva foram convencidos pelo diabo de que Deus não tinha uma intenção reta quando lhes proibiu. "Deus disse isso porque SABE que, quando vocês comerem a fruta dessa árvore, os seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus". Com essas palavras, o diabo convenceu o casal que Deus não foi transparente com eles e que não desejava que evoluíssem; antes, temia que isso acontecesse. Daí a proibição.
Deus havia posto a árvore do conhecimento do bem e do mal para testar a confiança que Adão e Eva tinham nele, no seu amor, na sua ternura, em seu bem. A partir do momento em que Adão e Eva desconfiaram do amor de Deus é que desobedeceram, comendo o fruto que não podiam comer.
Portanto, o primeiro pecado ocorreu na interioridade de Adão e Eva, quando desconfiaram do amor de Deus. A perda de confiança os afastou imediatamente de Deus.
Desde então, Adão e Eva começaram a morrer. Pela primeira vez sentiram vergonha de si mesmos e buscaram roupas para cobrir sua nudez. Já não se viam belos e perfeitos, mas feios e deficientes. Então apanharam folhas de figueira para cobrir sua nudez e, ao perceberem a aproximação de Deus, esconderam-se dele. Passaram então a ver Deus como um ser perigoso, de quem deveriam ter medo.
Assim como um casamento se desfaz devido ao adultério, quando marido e mulher deixam de confiar um no outro, o matrimônio entre Deus e ser humano se desfez ali, porque não mais o ser humano conseguia confiar nele. A confiança foi substituída pelo medo.
Como consequência, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Para trás ficou a árvore da vida, cuja presença era profética. Era a segunda chance que Deus havia deixado ao ser humano. Deus sabia que o homem iria pecar e, por isso mesmo, antes que o pecado acontecesse, já havia deixado no jardim a oportunidade de reconciliação.
Ao caírem, Adão e Eva perderam a Justiça interior, mas Deus foi ainda misericordioso com eles, deixando em seu coração a Lei. Essa Lei os haveria de proteger e de trazê-los de volta.
Adão e Eva deixaram o Éden, mas o Éden não os deixou. Viveram marcados pela frustração de terem perdido tudo.
Adão e Eva morreram, mas na memória da humanidade permaneceu a lembrança do Éden como local de profunda amizade com Deus. Desse jardim, o homem conserva ainda hoje uma espécie de saudade ou nostalgia. Instintivamente buscamos essa relação de confiança que se perdeu e ardentemente desejamos o regaço de Deus. Não apenas queremos uma reconciliação com Deus, mas sua amizade. 
É dessa busca que as mais diversas religiões se originaram. Por meio delas, queremos voltar para o nosso lar. Somos todos filhos pródigos que ansiamos o reencontro com nosso Pai.
O caminho de volta é nosso grande dilema. Temos ao nosso dispor a razão e nada mais. Essa razão, por sua vez, irá se basear na Lei interior, inscrita por Deus em nosso coração. 
Como nossa razão entende que a separação de Deus ocorreu através de uma obra má, ela conclui que o caminho de volta só pode ser a prática de boas obras. Se o que nos afasta de Deus é nossa maldade, só poderemos retornar à ternura do Éden, ao regaço de Deus, através de nossa bondade.
Por isso, todas as crenças do mundo, exceto a verdadeira fé, se baseiam em códigos de bondade e moralidade, por meio dos quais nos tornamos melhores e, por conseguinte, mais próximos de Deus.
Entretanto, o caminho das obras é pedregoso. Temos domínio sobre nossos atos e podemos refreá-los, porém quem há que possa refrear seus pensamentos e amar de maneira perfeita? Se o afastamento de Deus começou na interioridade de Adão e Eva, quando desacreditaram nele e ouviram o diabo, somente através de nossa interioridade retornaremos a Deus. Podemos nos tornar pessoas excelentes, do ponto de vista ético e moral, ou seja, exteriormente, sem que nossa alma se incline de fato para Deus. Existe uma cruel disparidade entre obras externas e intenção.
O ser humano tem domínio sobre seus atos, mas não governa seu coração. Quem há que possua controle sobre suas intenções? Quem há que sequer conheça suas intenções? Quantas sombras cobrem nosso interior! É então que a Lei nos morde. Ela deveria nos ajudar, mas não somos capazes de fazer bom proveito dela, porque fomos destituídos da Justiça interior.
Se Deus olhasse apenas a nossa aparência, seria muito fácil insistir nas boas obras. Mas ele vê o nosso coração e sonda aquilo que não conhecemos, nem queremos conhecer, pois tememos e temos vergonha. 
Adão e Eva, quando perceberam a aproximação de Deus, cobriram sua vergonha. Nós igualmente escondemos nosso coração, nossas intenções, que sabemos não serem boas ou porque são muito débeis.
Por fora, santos e fortes. Por dentro, nus, retraídos, envergonhados, tacanhos e muito fracos; sujos! 
Por que nos decepcionamos com os outros? Por que odiamos quando nosso amor não é reconhecido ou é desprezado? Por que somos movidos a elogios? Por que nos abatemos tanto diante das críticas?
Uma pessoa perfeita, que de fato amasse a Deus com todo o seu ser, não iria se decepcionar com ninguém, porque sua intenção seria totalmente isenta do desejo de qualquer retribuição. Também não se interessaria por elogios, porque seria verdadeiramente humilde. A humildade se esvai ao primeiro sorriso interior perante qualquer exaltação de nós mesmos. É possível conciliar humildade com o prazer de ser exaltado? 
Alguém perfeito também não se prostraria diante de críticas, porque não tem em conta sua honra, mas a de Deus.
Como é amargo descobrir esse lado sombrio de nós mesmos, perante o qual somos totalmente impotentes! 
Então vêm a tristeza, o desânimo e o pessimismo. É nessa hora que muitos largam mão de qualquer tentativa de reaproximação com Deus. Optam por viver indiferentes em relação a Deus, como se não mais tivessem alma. Se a consciência, que acusa, tendo por base a Lei divina, começa a incomodar, nada como um bom cautério para secá-la. 
Muitos outros fogem à reflexão. Procuram se contentar com a vista, com a imagem, com a superficialidade. Como tem sido rara hoje em dia a visão de alguém pensando na vida! As pessoas têm medo de refletir sobre si mesmas, com base na ideia muito bem enraizada em nossa mente de que "quem procura acha". 
A alienação de si mesmo é tentadora. É conveniente, às vezes, ter olhos e não ver, ouvidos e não ouvir, continuar praticando uma religião baseada em preceitos e contentar-se com isso, sem nunca aprofundar-se em si mesmo com honestidade (Isaías 6:9-10).
Ainda sobre o poder da reflexão, todos sabemos que pessoas mais cultas, isto é, que dispõem de mais instrumentos para autoanálise, padecem mais a vida e tendem a ter mais depressão que pessoas simples, que têm maior dificuldade para avaliar questões íntimas. São também elas que mais se ressentem das religiões, porque se frustraram consigo mesmas.
É muito triste a frustração de saber que tudo foi em vão. Salomão escreveu: "Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta ciência aumenta tristeza"(Eclesiastes 1:18) e "então vi que a sabedoria é mais proveitosa do que a estultícia, quanto a luz traz mais proveito do que as trevas. Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o estulto anda em trevas; contudo, entendi que o mesmo lhes sucede a ambos. Pelo que eu disse comigo: como acontece ao estulto, assim me sucederá a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então, disse a mim mesmo que também isso era vaidade" (Eclesiastes 2:13-15).
De repente percebemos que qualquer tentativa de retorno ao Éden, ao regaço de Deus, é em vão, quando por iniciativa própria, através de bondade exterior. Apesar de todos verem uma pessoa justa, eu sei de mim que nada sou e minha miséria me torna igual a todos. Sim, apesar de tudo, condenado como todos a morrer sem Deus.
Achávamos que estávamos buscando a Deus, mas andamos buscamos nós próprios. Fomos ludibriados. Daí vem profunda tristeza.
Essa tristeza visita a todos, mas pouquíssimos conseguem lidar com ela, da maneira como Deus gostaria.
"A tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação" (S. Paulo). Essa tristeza é redentora. É nossa única chance!
Bem-aventurado é aquele que desiste de si mesmo, quando se depara com sua verdadeira condição, nua e crua. Nessa hora, busca esconder de Deus sua nudez com folhas de figueira, mas debalde. É quando vem a vergonha de orar, a sensação de indignidade, como a do publicano que, ao adentrar a sinagoga, não ergueu a cabeça e dizia: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador!"
Aprendamos que foi na interioridade que Adão e Eva se afastaram de Deus, quando não confiaram inteiramente nele, dando ouvidos ao diabo. Também é na interioridade que Deus quer nos reencontrar, através de uma nova confiança, que é a fé.
A primeira coisa é que Deus haverá de nos encontrar. É ele quem nos visita. Não vamos até ele, com o intuito de encontrá-lo. Na melhor das hipóteses, damos voltas em torno de nós mesmos.
A segunda coisa é que ele terá que nos encontrar nus e envergonhados. Caso nos encontre displicentes, fugindo de nós mesmos, arrogantes e autossuficientes, ele não irá fazer nada. Entretanto, quando nos encontra amortecidos, sobrecarregados, envergonhados, ele então nos socorre com a fé.
A terceira coisa é que a fé restabelece a confiança em Deus e nos conduz de volta ao Éden, porque a fé nos torna amigos de Deus e nos coloca em seu regaço, onde deliciamos os frutos da árvore da vida.
Não confunda fé com crença. Nós podemos crer em qualquer coisa. Porém, fé é a firme confiança em Deus, que nada pode abalar, nem o que sabemos acerca de nós mesmos. O diabo, é claro, muda a abordagem: "É certo que morrerás. Teu mal está claro perante Deus e não há solução para isso. Tu te estribas numa falsa segurança. Haverás de perecer com todos os demais, porque és tão pecador quanto o mundo inteiro. De onde te veio que somente a fé é capaz de salvar-te?". É então que a fé deve ainda mais se fortalecer, para que não mais nos apartemos de Deus. Que todas as serpentes se aproximem, mas não deixe de olhar para a cruz, onde está seu Deus amoroso, pagando por seus pecados e remindo-o de toda a culpa.
Temos que ser firmes. Não percamos mais Deus de vista. Aconteceu uma vez, com nossos pais; que não mais se repita.
Quanto a você que se sente nu e não tem mais esperança, peça a Deus ajuda, assim como está, cingido por folhas de figueira. Deixe-se olhar por Deus. Ele olha amorosamente para você e também deseja a reaproximação. Não fuja nem se feche. É na nossa doença que Deus tem oportunidade de agir, não em nossa força. Ouça Deus dizer para você: "Não temas, porque eu te REMI; chamei-te pelo pelo teu nome, tu és meu". 



Autoria: Carlos Alberto Leão
Imagem extraída da internet

domingo, 5 de abril de 2015

Quia fecit mihi magna qui potens est, et sactum nomen eius - Pois me fez grandes coisas aquele que é poderoso, e santo é seu nome


"Aqui Maria canta, de uma só vez, todas as obras que Deus fez nela. Ela observa uma sequência conveniente. No versículo anterior, ela cantou o fato de Deus a ter contemplado e a sua misericordiosa vontade para com ela. Aliás, isso é o mais importante e o principal em toda a graça. Maria fala de obras e dons (...). Seu contemplar misericordioso é a herança que dura para sempre (...). Nos bens, Deus dá o que lhe pertence, na contemplação misericordiosa, ele doa a si mesmo. Nos bens recebemos sua mão, na misericordiosa contemplação ganhamos seu coração, Espírito, sua mente e vontade. Por isso a bem-aventurada virgem atribui o mais importante e principal à contemplação (...). 
Maria também não cita bens específicos, mas restringe todos a uma expressão: "Ele me fez grandes coisas". Isso quer dizer que tudo o que Deus fez nela é grande. Assim nos ensina: quanto maior a devoção no espírito, menos palavras ela precisa para se expressar. Maria sente que não pode expressá-lo em palavras, por mais que tente e queira. Por isso essas poucas palavras do espírito sempre são tão grandes e profundas, que ninguém é capaz de entendê-las. Exceto aquele que tenha o mesmo espírito. Tais palavras parecem insignificantes, sem substância e sem sabor para aqueles que não têm esse espírito. Eles próprios promovem suas causas com grande fluência e alarde. Cristo ensina em Mateus 6:7: não devemos usar muitas palavras quando oramos. Isso é próprio dos descrentes, que acham que serão ouvidos por causa de suas muitas palavras (...).
Então nos comportamos como se Deus fosse surdo e de nada soubesse, como se o quiséssemos acordar e instruir. Esse falso conceito a respeito de Deus colabora mais para sua desonra do que para sua honra. A situação é bem diferente quando alguém medita, bem no fundo do coração, sobre seus feitos divinos e os observa com admiração e agradecimento. Esse cai no entusiasmo e geme mais do que fala. As palavras fluem por si mesmas, sem serem pensadas, nem elaboradas. O próprio espírito borbulha com elas. É como se as palavras tivessem vida, mãos e pés, sim, como se todo o corpo e toda a vida, juntamente com todos os membros, quisessem falar. A isso se chama de louvar Deus em espírito e verdade (...).
As "coisas grandes" nada são senão o fato de Maria ter chegado a ser mãe de Deus. Foram dadas a ela tantas e tão grandes obras, que ninguém as pode compreender. Nisso está toda a sua honra e bem-aventurança. Por essa razão ela é uma pessoa especial dentre todo o gênero humano. Ninguém se iguala a ela, porque ela tem um filho com o Pai celeste. E que filho! Ela própria é incapaz de descrever esse acontecimento por ser muito grande (...). Por isso, toda a honra de Maria foi resumida numa única palavra: Mãe de Deus. Ninguém pode dizer coisa mais nobre dela e para ela, mesmo que tivesse tantas línguas quanto existem folhas e ervas, estrelas no céu e areia no mar. Também é preciso meditar no coração sobre o que significa ser mãe de Deus. 
Maria também atribui isso totalmente à graça de Deus, não a seu mérito. Embora tivesse sido sem pecado, essa graça era tão superior a tudo que, de modo algum, era digna dela. Como poderia uma criatura ser digna de ser a mãe de Deus? Alguns escritores falam muito sobre sua dignidade para essa maternidade. Mas eu acredito mais nela própria do que neles. Ela diz que sua nulidade foi contemplada e que Deus não recompensou com isso seu mérito, mas: "Ele me fez grandes coisas". Ele o fez por iniciativa própria, sem mérito de minha parte (...).
O fato de se cantar no hino "Rainha do céu, alegra-te": "...ao qual mereceste carregar" e, em outra passagem: "ao qual foste digna de carregar, etc" nada prova. As mesmas palavras são cantadas a respeito da santa cruz, que era feita de madeira e nada podia merecer. Isso deve ser entendido assim: para ser mãe de Deus, Maria tinha que ser mulher, uma virgem, da tribo de Judá e crer na mensagem do anjo, a fim de se prestar para tanto (...). A madeira não teve nenhum mérito ou dignidade, exceto o de servir para a cruz e de ter sido destinada para isso por Deus. Assim também Maria não teve outra dignidade para essa maternidade, exceto a de se prestar e ser destinada para isso, para que fosse somente graça e não se tornasse mérito e não fossem diminuídos a graça, o louvor e a honra de Deus, atribuindo demais a ela. É preferível anular os méritos de Maria a diminuir a graça de Deus. Na verdade, não se pode anular méritos em demasia, já que ela foi criada do nada, como todas as criaturas. Mas a graça de Deus é desmerecida com grande facilidade. Isso é perigoso e com isso não se prova amor a ela. De fato, é necessária moderação, para não exagerar com os nomes, chamando Maria de rainha do Céu. Isso está certo. Mas nem por isso ela é um ídolo que possa conceder algo ou ajudar alguém, como acreditam alguns que clamam mais a ela do que a Deus e nela buscam refúgio. Maria nada dá, mas somente Deus, como veremos logo em seguida.
"Aquele que é poderoso". Com isso Maria despe todas as criaturas de todo poder e força e os atribui somente a Deus. É muita coragem por parte de uma mocinha tão jovem e insignificante: com uma única palavra ela é capaz de tornar fracos todos os poderosos, impotentes todos os fortes, loucos todos os sábios e detestáveis todos os afamados (...). A expressão "aquele que é poderoso" significa que não há ninguém que faça algo, mas somente Deus realiza tudo em todas as coisas (...). As obras de todas as criaturas são obras de Deus (...).
Portanto, a santa mãe de Deus quer dizer o seguinte com essas palavras: nada de todas essas coisas e grandes bens é meu. Aquele que é o único que faz todas as coisas e cujo poder exclusivo atua em tudo, fez essas grandes coisas (...). Por isso eu disse que Maria não quer ser um ídolo. Ela nada faz. Deus é que faz todas as coisas. Devemos suplicar a ela para que, por amor a ela, Deus faça o que pedimos (...).
Por isso Maria acrescenta: "E santo é seu nome". Isso significa: assim como não me atribuo a obra, também não me imputo o nome e a honra (...). Não é justo que um faça a obra e outro leve a fama e receba a honra. Eu sou apenas a oficina na qual ele trabalha, mas nada contribuí para a obra. Por isso, ninguém me deve louvar, nem me dar a honra por me ter tornado a mãe de Deus. Mas se deve honrar e louvar Deus e sua obra em mim. Basta que as pessoas se alegrem comigo e me declarem bem-aventurada, porque Deus me usou para realizar em mim essas suas obras. Maria atribui todas as coisas inteiramente a Deus. Não reclama para si nenhuma obra, nenhuma honra, nenhuma glória (...).
Oh, que coração simples e puro! Que pessoa admirável! Coisas muito grandes escondem-se atrás de uma aparência tão humilde! Muitas pessoas entraram em contato com ela, conversaram, comeram e beberam com ela. Talvez a desprezaram e a julgaram uma pobre e simples cidadã comum e teriam se assustado se tivessem sabido essas coisas sobre Maria (...).
Portanto, é isso o que significa: "santo é o seu nome". "Santo" significa aquilo que foi separado, consagrado a Deus, o que não se deve tocar, nem manchar, mas honrar. "Nome" significa, por sua vez, boa reputação, fama, louvor e honra. Todos devem ficar longe do nome de Deus. Ninguém deve tocá-lo, nem apropriar-se dele (...). Pois ofendemos o nome de Deus quando nos vangloriamos e aceitamos honra ou quando nos agradamos conosco mesmos e nos vangloriamos de nossas obras ou bens, como faz o mundo, que blasfema e profana o nome de Deus sem parar. Ao contrário, como as obras são exclusivas de Deus, também o nome cabe exclusivamente a ele. Todos os que santificam seu nome dessa forma e renunciam à honra e à glória honram Deus de verdade (...).
Quando alguém nos elogia e nos conquista boa reputação, devemos tomar por exemplo a mãe de Deus e estar preparados para responder sempre com este versículo (...). (Dr. Martinho Lutero). Os grifos são meus.
Vídeo retirado da internet.

sábado, 4 de abril de 2015

Quia respexit humilitatem ancillae suae: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes - Pois contemplou a humildade de sua serva. Por isso me considerarão bem-aventurada todas as gerações


"Alguns interpretaram a palavrinha humildade como se a virgem Maria tivesse apontado para a sua própria, vangloriando-se dela. Por isso, algumas pessoas de igreja também se chamam de "humildes", o que está muito longe da verdade. Diante de Deus ninguém pode vangloriar-se de alguma coisa boa sem cometer pecado e expor-se à perdição. Devemos envaidecer-nos tão somente de sua pura bondade e graça, que ele mostrou a nós, indignos (...). Ninguém, a não ser o mais arrogante, se considera humilde e se envaidece da humildade. Somente Deus conhece a humildade. Também só ele a revela e julga, de modo que a pessoa sabe menos da humildade quando ela é verdadeiramente humilde. 
Conforme a Escritura, "humilhar" significa "rebaixar", "anular". Por isso os cristãos são chamados, em muitas passagens bíblicas, de "gente pobre, sem valor, rejeitada"(...). Assim, a humildade nada mais é do que um estado ou uma condição de desprezo, insignificância e rebaixamento (...). A essa situação de rebaixamento nos referimos anteriormente quando dissemos que os olhos de Deus olham somente para baixo, enquanto os olhos humanos olham apenas para cima (...). Por isso, na Escritura, Jerusalém é chamada de lugar sobre o qual repousam os olhos de Deus. Isso quer dizer: a cristandade jaz no fundo do poço e é insignificante perante o mundo. Por isso, Deus volta seu olhar para ela e seus olhos repousam sobre ela constantemente (...). 
É uma característica de Deus olhar para as coisas insignificantes. Por isso traduzi a palavra humildade por "nulidade" ou "ser insignificante". Portanto, Maria quer dizer o seguinte: Deus olhou para mim, uma moça pobre, desprezada e insignificante. Ele poderia ter escolhido ricas, importantes, nobres e poderosas rainhas, filhas de príncipes e grandes autoridades (...). Porém ele olhou para mim por pura bondade e usou para esse fim uma moça humilde e desprezada. Diante dele ninguém deveria vangloriar-se de ter sido digno disso. Também eu tenho que confessar que se trata de pura graça e bondade. Não há merecimento ou dignidade nenhuma de minha parte.
Falamos antes suficientemente que a doce virgem, com seu ser e sua condição insignificante, mereceu a surpreendente honra do olhar de Deus em sua imensa graça. Por isso ela não se vangloria de sua dignidade, nem de sua indignidade, mas somente do olhar de Deus (...). Ela não se envaidece de sua virgindade, nem de sua humildade, mas unicamente da graciosa observação divina. Por isso a ênfase não está na palavrinha "humildade", mas em "contemplar". Não é sua humildade que deve ser louvada, mas a atenção por parte de Deus. Como quando um príncipe estende a mão a um mendigo: não se elogia a nulidade do mendigo, mas a misericórdia e a bondade do príncipe.
Vamos desfazer essa opinião falsa e saber distinguir a verdadeira humildade da falsa. Para isso queremos desviar um pouco do assunto e dizer algo sobre a humildade. Muitos enganam-se gravemente sobre isso. Em nossa língua, chamamos de humildade aquilo que S. Paulo chama de tapeinophrosyne, em grego. Significa uma inclinação ou uma sensibilidade para as coisas insignificantes e desprezadas. Agora, há muitas pessoas que carregam água para o poço. São pessoas que aparecem em roupas, posições, gestos e lugares e palavras humildes, estão convencidas disso e se ocupam com isso. No entanto, querem com isso que os grandes, ricos, sábios e santos e inclusive Deus as considerem gente que prefere ocupar-se com coisas humildes. Se soubessem que ninguém liga para essas coisas, elas desistiriam disso. Essa é uma humildade superficial(...).
Os verdadeiros humildes não pensam no resultado da humildade. Eles olham as coisas insignificantes de coração puro, gostam de lidar com elas e nunca ficam sabendo que são humildes. Aqui a água jorra do poço e gestos, palavras, lugares, pessoas e roupas humildes são uma consequência natural (...).
Como já disse, a verdadeira humildade nunca sabe que é humilde. Se soubesse, se tornaria arrogante ao observar essa bela virtude. Ao contrário, ela se agarra às coisas insignificantes de coração e mente, com todos os sentidos. Seus pensamentos estão sempre ocupados por essas pequenas coisas. Com os olhos voltados para elas, a humildade não pode ver, nem reconhecer a si própria. Muito menos ainda pode dar-se conta das coisas elevadas. Por isso, a honra e a glorificação vão surpreendê-la ocupada com pensamentos alheios a ambas. Lucas 1:29 diz que Maria estranhou a saudação do anjo e ficou matutando que saudação seria aquela (...).
Por outro lado, a falsa humildade nunca se dá conta de que é arrogante (se soubesse, logo se tornaria humilde, ao observar esse defeito horrível) (...).
Não adianta ensinar a humildade, colocando coisas insignificantes e desprezadas diante dos olhos. Contrariamente, ninguém se torna arrogante porque coisas elevadas são colocadas diante de seus olhos. Não são as imagens que devem ser afastadas, mas o olhar (...).
A humildade é algo tão delicado e precioso, que ela não suporta olhar para si mesma. Contemplar está reservado apenas ao olhar divino, conforme diz o Salmo 113:6: "Ele contempla os humildes no céu e na terra" (...).
Em resumo: esse versículo nos ensina a reconhecer Deus corretamente, ao revelar que ele olha para os humildes e para os desprezados (...).
Maria havia louvado Deus, seu Salvador, com espírito desinteressado e puro, sem atribuir-se qualquer de seus bens, e cantou devidamente a sua bondade. Agora a mãe de Deus passa a louvar também suas obras e bens na ordem certa. Como já foi dito, a pessoa não se deve prender aos bens de Deus, nem apropriar-se deles. Através deles, deve subir até Deus, agarrar-se somente a ele e valorizar sua boa vontade. Depois também deve louvá-lo em suas obras, nas quais revelou bondade para amar, confiar e louvar (...).
No entanto, Maria começa por si própria e canta os feitos de Deus com ela. Ela nos ensina duas lições. A primeira: Cada qual deve preocupar-se com as coisas que Deus faz com ele, mais do que com todas as obras que Deus realiza com outro. A bem-aventurança de ninguém consistirá no que Deus realiza em outros, mas no que realiza em você (...). Cada um deve reparar cuidadosamente em si mesmo e em Deus, como se ele e Deus estivessem sozinhos no céu e na terra e como se Deus estivesse tratando unicamente com ele. Depois também poderá observar as obras dos outros.
A segunda lição que Maria nos ensina é esta: cada um deve ser o primeiro no louvor de Deus e deve divulgar as obras de Deus realizadas nele. Depois terá que louvar também a obra de Deus realizada em outros (...).
Hoje há muitos que não louvam a bondade de Deus porque constatam que não têm tanto quanto S. Pedro ou qualquer outro santo, ou este ou aquele na terra. Alegam que também louvariam e amariam Deus se tivessem tanto. Desprezam as bênçãos que Deus derramou sobre eles e não as reconhecem, tais como corpo, vida, razão, bens, honra, alegria, além de serviços que lhes presta o sol com todas as criaturas. Mesmo que eles possuíssem todos os bens de Maria, ainda assim não reconheceriam Deus neles, nem o louvariam (...).
Um passarinho canta e se alegra com o que é capaz e não reclama por não saber falar. Um cachorro salta alegre e está satisfeito, embora não tenha motivo. Todos os animais ficam satisfeitos com aquilo que têm e são e servem a Deus com amor e louvor. Somente o olho mau e egoísta do ser humano não se satisfaz nunca (...).
Maria reconhece o "contemplar" como a primeira obra de Deus realizada nela. Esta também é a obra maior, na qual se baseiam todas as demais e da qual procedem. Quando Deus volta seu rosto para alguém, aí reinam a pura graça e a bem-aventurança (...). A própria Maria considera isso muito importante e o expressa: "Por causa desse contemplar, gerações me considerarão bem-aventurada"(Lucas 1:48).
Preste atenção! Maria não diz que vão falar muito bem dela, elogiar sua virtude, exaltar sua virgindade ou humildade ou, talvez, cantar um hino para engrandecer seu feito. Pelo contrário, falarão somente do fato de Deus ter posto os olhos nela. Será dito que ela é bem-aventurada por causa disso (...). Por isso, Maria aponta para o contemplar e diz: "Eis que agora em diante me dirão bem-aventurada, etc". Isto é, a partir do momento em que Deus contemplou minha nulidade, serei declarada bem-aventurada. Com isso não se louva Maria, mas a graça de Deus para com ela. Ela inclusive é desprezada e se torna desprezível ao dizer que Deus contemplou sua nulidade (...). Ela atribui tudo inteiramente ao fato de Deus ter observado sua nulidade (...). Ninguém pense que desagrada a Maria ouvir que ela é considerada indigna de tão grande graça. Sem dúvida, ela não mentiu quando ela mesma confessou essa indignidade e nulidade. De modo algum, Deus contemplou essa nulidade por causa de merecimento, mas exclusivamente por graça (...).
Maria não gosta de ouvir os charlatães inúteis, que pregam e escrevem muito a respeito de seu mérito (...). Todos aqueles que insistentemente atribuem a Maria tanto louvor e honra e lhe impõem tudo isso não estão longe de transformá-la em ídolo, como se ela desejasse ser honrada e se devesse esperar todo o bem dela. Maria rejeita tudo isso e quer que Deus seja honrado nela e que, por intermédio dela, todos sejam levados a confiar plenamente na graça de Deus.
Portanto, quem quiser honrar Maria devidamente não deve observá-la de forma isolada. Deve vê-la diante de Deus e muito abaixo de Deus, despindo-a de tudo e, como ela diz, contemplando sua nulidade. Então, sim, você ficará maravilhado com a superabundante graça de Deus que olha, recebe e abençoa ricamente e com tão grande misericórdia uma pessoa tão insignificante e nula (...). Na sua opinião, haveria algo mais bonito para ela do que se você, por meio dela, encontrasse Deus e aprendesse a confiar nele (...)?
Ó bem-aventurada virgem e mãe de Deus, que grande consolo Deus nos revelou em você por ter contemplado tão misericordiosamente sua indignidade e nulidade. Isso prova que, de agora em diante, Deus não desprezará a nós, pobres seres humanos nulos, mas nos olhará com misericórdia (...).
Mas agora há pessoas que buscam auxílio e consolo nela como num deus. Receio que, em nossos dias, exista idolatria demais no mundo (...).
Traduzi a versão latina "todas as gerações" por "filhos dos filhos". Essa expressão é demasiadamente confusa. Muitos fizeram um grande esforço para entender até que ponto seria verdade que todas as gerações chamariam Maria de bem-aventurada. Afinal, judeus, pagãos e muitos maus cristãos a insultam ou, pelo menos, se negam a chamá-la de bem-aventurada. Isso porque entendem "geração" como a totalidade dos seres humanos. Na verdade, significa o seguinte: a sucessão dos nascimentos por nascimento natural, onde um nasce depois do outro (...). Portanto, a virgem Maria quer dizer o seguinte: seu louvor há de durar de geração em geração e não haverá época em que ela não seja louvada (...).
Também o termo grego makariousin significa mais do que "dizer bem-aventurada". Significa "bem-aventurar" ou "tornar bem-aventurada". Mas isso não se deve limitar a palavras, ajoelhações, inclinação da cabeça, tirar o chapéu, fazer imagens, construir igrejas - os maus também fazem isso. Para tanto se deve usar todas as forças e se precisa de uma sinceridade total. Isso acontece quando, por sua nulidade e pelo misericordioso olhar de Deus, o coração é tomado de alegria e prazer em Deus, por meio dela, e quando se diz e pensa de todo o coração: Ó bem-aventurada virgem Maria! Este "bem-aventurar" é a maneira certa de honrá-la, como dissemos". (Dr. Martinho Lutero). Os grifos são meus.
Vídeo extraído do Youtube.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Et exultavit spiritus meus in Deo salutaris meo - E meu espírito se alegra em Deus, meu salvador






"Já foi dito o que é "espírito": ele compreende as coisas incompreensíveis por meio da fé. Por isso, Maria também chama Deus de seu Salvador ou sua bem-aventurança. Ela havia recebido essa fé da obra de Deus realizada nela. Na verdade, ela age na ordem certa, chamando Deus de seu Senhor antes de chamá-lo Salvador, e chamando-o Salvador antes de mencionar suas obras. Com isso Maria nos ensina que devemos amar e louvar Deus em sua devida ordem e tal como ele é. Nunca devemos procurar nele algo de nosso próprio interesse. Ama e louva Deus exclusivamente e do modo legítimo aquele que o louva somente porque ele é bom, que não pensa em nada além de sua bondade pura e que se alegra somente com ela. Esta é uma forma elevada, pura, amável de amar e louvar, como convém a um espírito nobre e terno como o de Maria.
Aqueles que amam de forma impura e pervertida, que buscam apenas o puro prazer e procuram em Deus seus próprios interesses não amam e louvam sua exclusiva bondade. Esses correm atrás de seus próprios interesses e querem saber apenas até que ponto Deus é bom para eles, ou seja, em que medida Deus lhes revela sua bondade de modo perceptível e os beneficia. Enquanto dura esse sentimento, eles têm Deus em alta estima, são alegres, cantam e louvam. Mas quando Deus se esconde e retira o brilho de sua bondade, deixando-os no desamparo e na miséria, acabam também seu amor e louvor. Eles não são capazes de amar e louvar a bondade pura e imperceptível em Deus. Provam assim que seu espírito não se alegrou em Deus, seu Salvador, e que não existiu um verdadeiro amar e louvar da pura bondade de Deus. Têm mais prazer na salvação do que no Salvador, mais nos dons do que no Doador, mais na criatura do que em Deus (...).
"Não vos afasteis do reto e certo caminho de Deus, nem para a direita, nem para a esquerda" (Isaías 30:21). Isso significa que devem amar e louvar Deus de modo uniforme e correto, e não buscar a si mesmos e sua própria vantagem. Davi tinha esse espírito (...). O mesmo espírito revela a mãe de Deus: Maria. Cercada por nobres e superabundantes bens, ela não se agarra a eles, não busca através deles vantagem própria. Ela preserva seu espírito puro no amar e louvar a pura bondade de Deus. Está disposta a perder, de boa vontade, seus bens, se Deus quisesse tirá-los novamente, deixando-lhe um espírito pobre, despido e carente (...).
Riqueza, honra e poder são um convite e uma razão para o mal. Por isso é tanto mais elogiável o maravilhoso espírito de Maria. Ela goza de honras tão extraordinárias e, mesmo assim, não cede à tentação. Comporta-se como se não o enxergasse e continua no caminho da mesma forma e de modo correto. Maria prende-se somente à bondade divina, que não vê, nem percebe, e renuncia aos bens que percebe. Não tem prazer com eles, nem quer tirar proveito deles, de modo que canta com justa e verdadeira razão: "Meu espírito se alegra em meu Deus, meu Salvador". Na verdade, esse é um espírito que se alegra e pula de alegria apenas na fé". (Dr. Martinho Lutero).
Vídeo extraído do Youtube.

Magnificat anima mea Dominum - Minha alma enaltece a Deus, o Senhor


"Esta palavra nasce de um amor intenso e de uma alegria excessiva, nos quais alma e vida erguem-se inteiramente de dentro do espírito. Por isso, Maria não diz: "Eu enalteço a Deus", mas "minha alma", como se quisesse dizer: Minha vida, com todos os meus dons, se movimenta no amor de Deus, em louvor e grande alegria. Deixo de ser dona de mim mesma. Antes sou engrandecida do que exalto a mim mesma para o louvor de Deus. Isso acontece a todos os que são invadidos pela doçura de Deus e por seu Espírito, assim que sentem mais do que conseguem expressar. Pois louvar a Deus não é obra humana. Antes é um sofrer alegre a obra exclusiva de Deus, que não se pode ensinar com palavras, mas somente através de experiência própria (...).
Vamos analisar palavra após palavra. A primeira é: "minha alma". A Escritura divide o ser humano em três partes. São Paulo diz no último capítulo de Tessalonicenses: "Deus, que é Deus de paz, vos santifique inteiramente, para que todo o vosso espírito, juntamente com corpo e alma, seja preservado irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo"(1 Tessalonicenses 5:23). Além disso, cada uma dessas três partes, assim como também o ser humano todo, divide-se ainda de outra forma em duas partes: espírito e carne (...). Elas podem ser todas boas ou más, o que significa ser "espírito" ou "carne".
A primeira parte, o espírito, é a mais elevada, mais profunda e mais nobre do ser humano. O espírito capacita o ser humano para entender coisas incompreensíveis, eternas. Em resumo, ele é a casa onde moram a fé e a Palavra de Deus (...).
A alma é, segundo sua natureza, o mesmo espírito. Mas em outra função, ou seja, na função de dar vida ao corpo e atuar por meio dele (...). A razão é a luz nessa casa. Onde essa luz da razão não for governada pelo espírito iluminado pela fé, como por uma luz superior, ela nunca pode estar livre de erro. É medíocre demais para tratar de assuntos divinos (...).
A terceira parte é o corpo com seus membros. Suas obras restringem-se à execução e aplicação daquilo que a alma reconhece e o espírito crê (...).
Agora Paulo pede que Deus, que é Deus da paz, nos santifique não apenas em uma dessas partes, mas totalmente, de forma que o espírito, a alma e o corpo sejam santos. Muito poderia ser dito sobre o motivo dessa súplica. Em resumo: se o espírito deixa de ser santo, nada mais é santo. Agora, a santidade do espírito é aquela que está mais exposta e corre maior perigo. Ela consiste exclusivamente na simples e pura fé, visto que a fé não lida com coisas que  podem ser vistas. Aparecem então falsos mestres e enganam o espírito. Um sugere as obras; outro, métodos de como tornar-se justo (...).
Apenas a fé nos torna justos, unidos e pacíficos (...).
A paz tem somente uma origem: quando se ensina que nenhum obra, nenhuma prática externa nos torna retos, justos e bem-aventurados, mas somente a fé, isto é, a boa confiança na graça invisível de Deus, que nos é prometida (...). Onde não existe esta fé, tem que haver muitas obras. Estas têm por consequência a discórdia e a desunião, de modo que ali não há mais lugar para Deus (...). Por isso São Paulo não se satisfaz em dizer: "para que vosso espírito, vossa alma, etc", mas diz: "todo o vosso espírito". Tudo depende inteiramente dele (...). Somente o cristão tem o espírito por inteiro. Tudo depende da fé do espírito. A esse espírito que possui toda a herança peço que Deus nos livre das falsas doutrinas, que querem provocar confiança em Deus por meio de obras (...).
Quando esse espírito, possuidor de toda a herança, é preservado, então também corpo e alma podem ficar livres de engano e obras más. Do contrário, se o espírito não tem fé, é impossível que a alma e toda a vida não se desencaminhem e se percam(...).
Em seguida vem a palavra magnificat, que significa "engrandecer", "enaltecer" e "ter em alta estima". Essa expressão é usada para aquela pessoa que pode, sabe e quer fazer muitas coisas grandes e boas, como segue nesse cântico de louvor. Assim como a palavra magnificat pode lembrar o título de um livro que trata desse assunto, também Maria revela nessa palavra o assunto do qual falará em seu cântico de louvor: dos grandes feitos e das obras de Deus para fortalecer nossa fé, consolar todos os humildes e incutir medo em todos os maiorais da terra (...). Mas não é possível alguém assustar-se ou consolar-se por causa dessas grandes obras de Deus quando não crê que Deus é capaz de fazer grandes obras. Porém não somente isso. Também tem que crer que Deus quer fazê-las e que lhe agrada muito fazê-las. Também não basta que você creia que Deus as quer fazer em outros, mas não em você, excluindo-o dessa obra divina (...). Você deve colocar diante de seus olhos, sem vacilar, a vontade de Deus para com você, para que creia firmemente que ele fará e quer fazer grandes coisas também em você. Essa fé é viva e ativa, penetra e transforma toda a pessoa. Ela obriga você a temer quando está por cima e a sentir consolo quando está por baixo. Quanto mais alto você está, tanto mais deve temer. Quanto mais oprimido está, tanto mais pode consolar-se (...).
Nós não enaltecemos Deus por causa de sua natureza, pois ele não muda. Mas ele cresce em nosso reconhecimento e percepção, isto é, quando o estimamos muito e pensamos grande a seu respeito, em relação à sua bondade e graça. Por isso, a santa mãe não diz: "minha voz" ou "minha boca", também não: "minha razão" ou "minha vontade" engrandece o Senhor. Existem muitos que louvam a Deus em voz alta, pregam-no com palavras preciosas, falam, discutem, escrevem, pintam muito sobre ele. Existem muitos que pensam sobre ele e que o buscam por meio da razão e das especulações. Além disso, são numerosos os que o engrandecem com falsa devoção e vontade. Muito antes, a santa mãe diz: "minha alma o engrandece". Isso quer dizer, toda a minha vida, todo o meu ser, meus sentidos e minhas forças atribuem grandes coisas ao Senhor (...). Algo semelhante acontece conosco, quando alguém nos faz algo especialmente bom, toda a nossa natureza parece voltar-se para essa pessoa e dizemos: "Oh, eu o aprecio muito". Isso, na verdade, significa: "Minha alma o enaltece". Esse sentimento ficará mais forte quando notamos a bondade de Deus, que é imensamente grande em suas obras. Todas as palavras e pensamentos vão parecer insuficientes para nós. E toda a vida e a alma devem emocionar-se, como se tudo quisesse cantar com alegria e dizer o que vive em nós (...).
Os benefícios de Deus revelam a natureza dos corações orgulhosos e complacentes consigo próprios. Por isso é necessário observar a última palavrinha: "Deus". Maria não diz: "Minha alma engrandece - a si mesma" ou "me tem alto apreço". Ela também não queria que se fizesse muito caso dela. Muito antes, ela engrandece exclusivamente a Deus, atribui tudo somente a ele. Ela se desfaz de tudo e devolve tudo a Deus, do qual o havia recebido. Maria notou a grande obra de Deus nela, mas ela não se considerou maior do que a pessoa mais humilde da terra. Se o tivesse feito, teria caído no inferno com Lúcifer. 
Maria teve apenas este pensamento: se outra jovem tivesse sido beneficiada por Deus, ela também desejaria alegrar-se e querer tudo de bom para essa jovem (...). Maria também teria se conformado se Deus lhe tivesse tirado esses benefícios e dado a uma outra jovem (...). Ela não se atribui nada de tudo isso. Não foi mais do que um alegre albergue e uma serviçal anfitriã desse hóspede. Por isso ficou com tudo para sempre.
Engrandecer Deus significa: pensar grande somente dele e não pedir nada para nós mesmos. Disso se pode concluir que Maria teve muitos motivos para cair e pecar (...). Você não percebe o quanto é maravilhoso esse coração? Como mãe de Deus, Maria se vê elevada acima de todas as pessoas. Mesmo assim, ela continua tão simples e serena, que não teria considerado nenhuma empregada inferior a si". (Dr. Martinho Lutero). Os grifos são meus.
Vídeo extraído do Youtube.

Magnificat - Introdução


"Se queremos entender este santo cântico de louvor, precisamos levar em conta que a virgem Maria, muito louvada, fala de experiência própria. Ela foi iluminada e instruída pelo Espírito Santo. Ninguém é capaz de entender corretamente Deus ou a Palavra de Deus se não for com a ajuda do Espírito Santo. Mas de nada adianta essa ajuda se a pessoa não experimenta, sente ou percebe o Espírito Santo. Nessa experiência, o Espírito ensina como em sua própria escola. Fora dela não se ensina além de palavras soberbas e de conversa fiada. Este é o caso da virgem Maria. Ela própria experimentou que Deus fez grandes coisas nela, mesmo ela tendo sido uma pessoa sem importância, pobre e desprezada. O Espírito Santo ensina à virgem esta rica sabedoria: Deus é um Senhor que não faz outra coisa do que engrandecer o que é humilde, de rebaixar o que é grande, enfim, de quebrar o que está feito e de refazer o que está quebrado. 
No princípio, Deus criou o mundo do nada (por isso é chamado de Criador Todo-Poderoso). E ele não mudou sua maneira de agir: até o fim do mundo ele quer transformar tudo aquilo que é insignificante, desprezado, miserável e morto em algo precioso, honrado, bem-aventurado e vivo. Por outro lado, ele quer reduzir tudo aquilo que é alguma coisa, que é precioso, honrado, bem-aventurado e vivo a nada, a algo desprezado, miserável e moribundo. Nenhuma criatura pode agir assim; ninguém é capaz de criar algo do nada. É esta a razão por que os olhos de Deus olham somente para baixo, nunca para o alto (...). Já que Deus é aquele que está mais alto e nada existe acima dele, ele não pode olhar para além de si. Também não pode olhar para os lados, porque ninguém é igual a ele. Por isso, precisa olhar fatalmente para si mesmo e para baixo. Quanto mais baixo alguém está, tanto melhor Deus o enxerga. Os olhos do mundo e dos seres humanos fazem o contrário: olham somente para cima e querem erguer-se a todo custo (...). Quando constatamos que ele é um Deus que olha para baixo e ajuda somente os pobres, desprezados, miseráveis, desgraçados, abandonados e aqueles que não são nada, ele se torna muito querido. O coração está possuído de alegria, pula e salta por causa da grande estima que recebeu em Deus (...). Também a doce mãe de Cristo nos ensina aqui, através de sua própria experiência e por meio de palavras, como se deve conhecer, amar e louvar a Deus. Ela se vangloria e louva Deus com um espírito alegre. Diz que ele tinha olhado para ela, uma pessoa humilde e sem nenhuma importância. Por isso, deve-se pressupor que ela tivera pais pobres, desprezados e humildes (...). Maria não era filha de gente importante em Nazaré, sua cidade natal, mas de um cidadão simples e pobre. Não tinha nenhuma importância e nem estima pessoal (...). Não era nada diferente de uma pobre doméstica de hoje, que faz o que é mandado.
Isaías 11.1 profetizou: "Do tronco de Jessé nascerá um rebento, e de sua raiz brotará uma flor sobre a qual repousará o Espírito". O "tronco" ou a "raiz" é a geração de Jessé ou Davi, especificamente a virgem Maria. O "rebento" ou a "flor" é Cristo. Não é provável, muito antes inacreditável, que de um tronco seco e de uma raiz podre brotem um ramo bonito e uma linda flor. Logo também não era de esperar que a virgem Maria fosse mãe de um filho tão importante. Acredito que ela é chamada de "tronco" ou "raiz" não somente por ter sido mãe de forma sobrenatural, como virgem, mas porque é sobrenatural que de um tronco morto nasça um broto". (Dr. Martinho Lutero). Os grifos são meus.
Vídeo extraído do Youtube.