sábado, 5 de outubro de 2019

IGREJA CATÓLICA OU IGREJAS CATÓLICAS? - PARTE 3

"Faz parte também desse resultado o 'Corpo de Cristo, que é a Igreja': visível, definida e articulada, assim como era o seu corpo físico. Vista de fora, ela se assemelha a uma associação humana qualquer, com suas condições de admissão e demais estatutos. Em uma perspectiva interior, ela é a Sua presença real na Eucaristia, com todo o organismo impregnado pelo Seu Espírito".

"Antes de tudo, é necessário estabelecer um princípio: A Igreja, infelizmente, é uma só, possui uma realidade histórica tanto quanto o seu Fundador, e não há nenhuma possibilidade de apelação a uma Igreja ideal e melhor, em detrimento de uma Igreja empírica, ineficiente e escandalosa. Infelizmente, a Igreja ideal não é real senão na empírica. E o uso traz consigo o 'ab-uso', que, ainda que não possa ser suprimido, deve ser combatido, para que possa voltar a ser digno de uso". (Hans Urs von Balthasar, A Verdade é Sinfônica).

Autoria: Carlos Alberto Leão.
Imagem extraída da internet.

sábado, 23 de março de 2019

IGREJA CATÓLICA OU IGREJAS CATÓLICAS (PARTE 2)

Dando prosseguimento ao texto anterior, iremos apresentar agora aqueles elementos que definem a Igreja Católica.




1 - Fé na Trindade: 
A Igreja Católica professa a existência de uma só essência divina em três hipóstases: Pai, Filho e Espírito Santo. Os três são Deus, porém não três deuses idênticos. O que uma das hipóstases é substancialmente, todas são, porém sem multiplicidade. É de fato, um grande mistério.

2 - Fé na Encarnação do Filho: 
A Igreja Católica crê que o Filho tornou-se homem, cujo nome é Jesus. Ele é verdadeiro Deus, gerado do Pai e consubstancial a ele. Também é verdadeiro homem, gerado de Maria e consubstancial a ela. Não há mistura das naturezas divina e humana. Jesus é Deus e homem em uma só pessoa indivisa: corpo, alma e Divindade. Destarte, Maria é mãe de Deus, pois na pessoa de Jesus não há divisão alguma.

3 - Fé no pecado original: 
A Igreja Católica ensina que o pecado do primeiro homem, Adão, acarretou uma corrupção profunda de sua natureza, produzida pela privação da Divindade. Afastando-se o homem da fonte, definhou e morreu. Afastando-se da luz, foi tomado por densas trevas. Tal corrupção foi legada a todos os homens, indistintamente, já sendo real à concepção. 
Uma vez privado da Divindade e corrompido por sua privação, o homem segue pecando e não consegue mais aproximar-se de Deus por meios próprios. 
A Igreja Católica ensina que os pecados são uma grave ofensa ao Criador, pois destroem aquilo que ele fez com muito amor, sobretudo a sua Imagem, que é o homem. Também ensina que o pecado atrai sobre nós o domínio do diabo, que subjuga o homem através de sua fraqueza, incitando-o ao pecado e, como consequência, enfraquecendo-o cada vez mais. Quando o diabo é chamado de "deus deste século", por "século" a Igreja quer significar a humanidade corrompida pelo pecado, que encontra-se sob o cativeiro satânico.
Ressalte-se que a Igreja não aceita a ideia de corrupção da substância humana. Esta permanece tão santa como no dia de sua criação. A corrupção é, antes, uma privação do Bem. A substância está sob trevas, mas não é treva. Em si mesma, permanece o que é: Imagem de Deus.
A ideia de uma existência positiva do mal ou de uma natureza humana infectada pelo pecado não faz parte do pensamento católico. Para a Igreja Católica, o mal é sempre um não-ser ou privação do ser. A visão positiva do mal está associada à heresia gnóstico-maniqueísta.
Até mesmo a ideia de "ofensa", com suas implicações legais, deve ser compreendida no sentido negativo. Ao ofender, o homem não produz, mas destrói. E as implicações legais advêm dessa destruição.

4 - Fé na redenção: 
A Igreja Católica prega que o Verdadeiro Filho de Deus tornou-se verdadeiro homem, gerado de Maria, para redimir o homem. É Jesus Cristo, o segundo Adão, aquele que veio para restabelecer a comunhão entre homem e Deus. Ele é de fato um mediador entre Deus e o homem, porque possui ambas as naturezas, sem qualquer mistura, em perfeita harmonia. Em Jesus Cristo, Divindade e humanidade se unem eternamente. 
Jesus Cristo é chamado segundo Adão porque representa todos os homens, em sua obediência e satisfação. Obedeceu à Lei eterna de Deus, em seu sentido mais profundo. Graças a ele é que se pode dizer que um homem cumpriu a Lei! Satisfez pela culpa na cruz, sendo o único sacrifício aceitável por Deus para expiação dos pecados. 
Essa satisfação é entendida pela Igreja Católica de várias formas, que se complementam. Num sentido metafísico, a crucificação de Jesus significa a morte da carne ou a morte da morte. Num sentido legal, Jesus foi morto injustamente pela Lei, tornando-a transgressora de si mesma e, por conseguinte, esta perdeu o direito de reivindicar. Se a Lei transgredida é a base do domínio satânico, a Lei transgressora é o direito que Deus obtém para desbancá-lo. Num sentido expiatório, a condenação de Jesus é entendida como a justa punição de todos os pecados humanos. Somente uma obra infinita, padecida pelo próprio Deus, poderia satisfazer por tão infinita ofensa e restabelecer a ordem cósmica. 
Entretanto, toda a compreensão humanamente possível da obra de Cristo exige que este seja verdadeiro homem e verdadeiro Deus. É o Deus que vence a morte e a Lei, que reivindica a pena. É o homem que morre, que cumpre a Lei e que é castigado.

5 - Fé na justificação somente pela fé: 
A Igreja Católica confessa categoricamente que a Justiça não é conquistada pelo homem, mas lhe é concedida por Deus, por meio da fé. Quando o homem crê, é-lhe imputada a Justiça de Cristo, por meio da qual ele é plenamente justificado. As boas obras não tornam o homem justo perante Deus, mas decorrem dessa justiça outorgada. A Igreja também confessa que nenhum mérito humano é capaz de gerar a fé. A fé é um dom gratuito de Deus. Ela apreende a  verdadeira Justiça, que também é dom de Deus. Dessa justiça provêm as verdadeiras obras e delas, os méritos. Portanto, os méritos são procedentes da fé, não precedentes. A Igreja também confessa unanimemente que a perseverança na fé é outorgada por Deus. Deus é a fonte de onde a Igreja extrai a sua vida.
A Igreja também ensina que os mandamentos são cumpridos somente pelo amor, mais precisamente pelo amor a Deus, que denominamos Caridade. Essa Caridade não é algo que nossa natureza enfraquecida é capaz de produzir, mas é infusa em nossos corações, por ação do Espírito Santo. 
A Igreja não adota os mandamentos que foram ordenados ao povo judeu, na Antiga Aliança. Ela se atém a dois mandamentos somente: amar a Deus e amar ao próximo. A obediência exterior e servil dos judeus é  um simulacro muito rudimentar da verdadeira obediência, que consiste no amor. Somente o amor infuso nos corações é capaz de levar-nos a praticar o verdadeiro bem. Por conseguinte, a Igreja não obedece por coação ou medo, mas livremente e por amor. Amor este que não provém dela, mas é infuso pelo Espírito Santo.
Como sinal de rompimento com a Lei dos judeus, a Igreja nunca observou o sábado, como se verifica em escritos de Santo Irineu. Também adota o uso de imagens como testemunho de seu rompimento com a Lei. A Igreja Católica não é iconoclasta. Ela é livre quanto ao uso de imagens, mas não quanto à proibição. 

6 - Fé nos sacramentos: 
A Igreja Católica confessa que os sacramentos do Batismo e da Eucaristia não são meros ritos. Eles são os instrumentos usados por Deus para infundir fé, Caridade e Justiça no homem. Portanto, aquilo que Deus concede ao homem com o intuito de salvá-lo, Deus não o faz imediatamente, mas por meio dos sacramentos. Os sacramentos inserem o homem no mistério de Cristo, em sua vida, morte, ressurreição e assunção. Em outras palavras, os sacramentos comunicam ao homem o que é próprio de Cristo.
Para a Igreja Católica, o homem é devolvido à verdadeira vida por meio do Batismo. Depois é aperfeiçoado ou imortalizado pelo sacramento da Eucaristia. O Batismo é o início, a Eucaristia é o meio, a ressurreição é o fim. Portanto, o sacramento final e definitivo é a ressurreição da carne.
Como os sacramentos são necessários à salvação, ninguém deve ser privado deles, nem mesmo as crianças. 

7 - Fé em um só Batismo: 
A unicidade da Igreja depende da unicidade sacramental. Os eventos de nossa Salvação foram únicos: um único nascimento, uma única paixão, uma só morte, uma ressurreição somente e uma única assunção. Portanto, é necessário que os sacramentos que nos ofertam esses eventos únicos também sejam únicos. Segundo Santo Ambrósio: "Ora, uma só vez foi Cristo crucificado, uma só vez 'morreu pelo pecado'; por isso há um só Batismo, e não muitos" (Sobre a Penitência). Consoante a isso, a Igreja Católica tem somente um Batismo e jamais rebatiza alguém.

8 - Fé na Eucaristia: 
A Igreja Católica ensina que Cristo está presente substancialmente nos elementos consagrados: pão e vinho. Não é uma ascensão do intelecto aonde Cristo está, mas um descenso dele até nós. É por isso que a Igreja Católica usa o termo "transformação", para indicar que não subimos ao Céu, mas que Cristo desce e vem ao nosso encontro com seu corpo e sangue. O pão se transforma em corpo, porque o corpo desce e vem a nós. O vinho se transforma em sangue, porque o sangue desce e vem a nós. Então, a ideia central da "transformação" é que o Verbo, assim como um dia desceu do Céu ao ventre virginal de Maria, ele novamente desce ao pão e ao vinho. Os elementos eucarísticos tornam-se como que o ventre onde Jesus é abrigado.
A Igreja Católica também confessa que a Eucaristia é um sacrifício de louvor universal. É o cumprimento da profecia: "Pois, de onde nasce o sol até onde ele se põe, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício puro, porque meu nome é glorificado entre as nações - diz o SENHOR dos exércitos" (Malaquias 2:11). É um testemunho ao mundo que Cristo padeceu e morreu para nos salvar. Este caráter sacrifical é sinalizado pelas palavras de Cristo: "em memória de mim". Ele quer ser louvado e anunciado por meio da Eucaristia.  
A Eucaristia é um sacrifício expiatório no sentido estrito de que ela nos concede o Cristo imolado, conferindo-nos o perdão que emana de seu sacrifício único. Há um movimento bilateral: um sacrifício expiatório, em que o Cristo imolado é dado ao povo, para o perdão dos pecados. Um sacrifício de louvor, em que o povo louva a Deus e o proclama entre as nações. A ênfase da Igreja sobre um movimento ou outro pode variar ao longo do tempo, mas não é católico negá-los.
Ressalte-se que a Igreja não é capaz de colaborar com sua expiação. Ela somente a recebe pela fé e dá graças (passividade). Portanto, a visão de um sacrifício expiatório realizado pela Igreja, mais especificamente pelo sacerdócio, é estranha ao verdadeiro catolicismo. A obra eucarística se limita ao louvor e anúncio, contanto que haja fé

9 - Fé na ressurreição: 
A Igreja Católica ensina que o homem morto haverá de ressurgir com seu mesmo corpo. Os elementos que constituem o corpo humano separam-se através da morte e serão reunidos através da ressurreição. Não haveremos de receber um novo corpo, mas teremos este nosso mesmo corpo refeito, sem a corrupção do pecado.
A ressurreição do corpo é uma das mais eloquentes provas de que a substância humana permanece intacta e que o mal é uma realidade negativa, posto que nada de nosso ser será rejeitado.
A doutrina da ressurreição também não se limita ao corpo humano. A Igreja ensina a ressurreição cósmica, em que todo o universo será purificado da desordem promovida pelo pecado. A Igreja não prega um Céu afastado deste mundo, mas ensina que este mundo será santificado pelo poder divino, tornando-se novos céus e nova terra.
A ressurreição não é somente um evento futuro que se aguarda. A ressurreição do corpo é o clímax de algo que acontece hoje, de forma muito concreta. Quando o homem é unido a Cristo pelo Sacramento do Batismo, recebe a luz que provém dele, a qual dissipa as trevas do pecado. A luz de Cristo penetra a escuridão da ausência de Deus, devolvendo às superfícies sua verdadeira cor. A santificação é a ressurreição hoje, em que a natureza humana assume gradativamente sua verdadeira condição e vocação. Através da luz de Cristo, o homem é capaz de ver o homem.
A Igreja também ensina que as verdadeiras obras consistem em lançar luz sobre condições escurecidas pela privação de Deus. Quando um cristão chega a algum lugar, ali também chega o próprio Deus, trazendo claridade ao que é escuro, restauração ao que está corrompido, novidade ao que é obsoleto. É por isso que Cristo chama a Igreja de "luz do mundo" e "sal da terra".
O que Deus faz hoje veladamente, por meio de cristãos fracos, ele irá fazer às claras, no chamado último dia, em que Jesus Cristo haverá de voltar, para julgar os vivos e os mortos.

10 - Fé no julgamento final: 
A Igreja considera impossível que os homens todos tenham o mesmo destino, seja a morte ou a salvação. Não podemos imaginar um Deus que seja menos justo que nós. Enquanto distinguimos os erros, procurando agravantes e atenuantes, discutindo racionalmente todos os elementos que aumentam ou diminuem a culpa, não podemos esperar menos da natureza de Deus. A razão humana é imagem da razão divina. 
A Igreja Católica confessa que Deus haverá de julgar todos os demônios e homens. A própria misericórdia de Deus tem um respaldo legal, pois se baseia na satisfação de Cristo. A Igreja não crê em uma misericórdia mole e injusta. Também não assume a postura fatalista dos ateus e agnósticos, que ensinam um só destino para todos os homens, independentemente do que fizeram.

Esses elementos compõem a substância do catolicismo. Eles são facilmente identificados nos credos apostólico e niceno. Entretanto, uma explanação é necessária porque os cristãos que não são católicos podem usá-los levianamente contra a Igreja Católica, dando-lhes uma interpretação não ortodoxa.
De Santo Estêvão a nós hoje, com menor ou maior elegância e propriedade, todos os católicos de todos os tempos confessamos todos esses elementos, conforme a explicação dada aqui.
Para concluir, busquemos a analogia de uma árvore de Natal. Imaginemos que a árvore seja o catolicismo e que os enfeites sejam acréscimos doutrinários. Evidentemente, não são os enfeites que definem a árvore de Natal, eles servem apenas para diferenciá-la de outras. Uma árvore pode ter muitos enfeites, outra, poucos. Entretanto, são unas no que dizem respeito à árvore. Assim também acontece com as diferentes igrejas católicas. Elas são unas na essência, no que lhes é elementar. Diferentes quanto aos acréscimos. Algumas igrejas católicas possuem poucos acréscimos. Outras possuem muitos acréscimos. No entanto, são todas elas uma só e santa Igreja Católica. Podemos dizer isto com relação à Igreja de Roma, às igrejas ortodoxas orientais, à Igreja Anglicana e à Igreja Luterana.
Recapitulando, ser Igreja é crer no Evangelho. Ser Igreja Católica é confessar seus elementos doutrinários imutáveis. Se ser Igreja é algo bom, ser católico é estupendo

Autoria: Carlos Leão.
Imagem extraída da internet.




quarta-feira, 6 de março de 2019

IGREJA CATÓLICA OU IGREJAS CATÓLICAS? (PARTE 1)

O que é a Igreja? Para alguns, uma instituição. Para outros, algo inteligível, não palpável. Não é uma pergunta fácil de se responder.
Igreja é, segundo o pensamento luterano, a sociedade dos fiéis. Aqueles que creem em Cristo compõem uma sociedade que se chama Igreja. Nela se encontra o Evangelho. Este é seu grande distintivo.
Entretanto, há uma Igreja que é católica, uma só! A Igreja é uma coisa mais ampla que a Igreja Católica. É perfeitamente possível ser Igreja, sem ser católico. Então é necessário que analisemos o que significa ser Igreja Católica.






O termo "Igreja Católica" aparece pela primeira vez nos escritos de Santo Inácio de Antioquia. Ela designa a concretude daquilo que foi anunciado pelos profetas: a conversão dos gentios, o amor de Deus difundido entre as nações, o sacrifício de louvor prestado em toda parte, não só dentro dos muros de Jerusalém. Tem, portanto, uma conotação inicial de universalidade do culto. Para essa universalidade apontam os quatro cantos da cruz de Cristo, no dizer de São Gregório de Nissa: Cristo reinando no centro do cosmos sobre as potestades, sobre os infernos e sobre a terra inteira, do oriente ao ocidente.
Além da ideia de universalidade do culto, o termo expressa também a unidade de pensamento ou a unidade doutrinária. Quando os hereges começaram a surgir, ameaçando a unidade da Igreja, o termo "católico" passou a designar a doutrina correta ou verdadeira, em oposição ao que era herético ou mentiroso. Assim, a unicidade católica tem a ver com a unicidade da verdade, porquanto não há duas verdades, mas uma só! Sempre haverá quem está certo e quem está errado. A busca da verdade não comporta um talvez, é um esforço pelo absoluto.
Temos aqui um lindo testemunho sobre o que é a Igreja Católica, por São Cipriano de Cartago:

"A Igreja é uma, embora compreenda uma multidão sempre crescente com o aumento de sua fecundidade. Assim, como há uma só luz nos muitos raios de sol, uma árvore em muitos ramos, um só tronco fundamentado em raízes tenazes, muitos rios de uma única fonte, assim também esta multidão guarda a unidade de origem, se bem que pareça ser dividida por causa da abundância inumerável dos que nascem com prodigalidade" (A Unidade da Igreja Católica).

A Igreja Católica teve seu território muito bem delimitado no primeiro milênio da Era Cristã, quando então o Império Romano ainda existia e a Igreja estava ligada ao Estado. O esfacelamento do Império Romano e o Cisma do Oriente atingiram a unidade visível da Igreja Católica. Por conseguinte, tornou-se necessário crer nessa unidade. É o que professamos no Credo Niceno: "Creio em uma Santa Igreja Católica e Apostólica". Um artigo de fé não menor que os demais.
A catolicidade da Igreja é algo tão imutável quanto a verdade. Não posso admitir que somos hoje mais católicos que Santo Estêvão ou São Tiago. O que eles tinham de católicos, nós temos hoje, sem qualquer variação. Sendo assim, não posso conectar a catolicidade às tradições e ritos, que sempre foram variados e que mudam ao longo do tempo. Não posso também conjugá-la ao episcopado, pois este também se dividiu. Hoje temos diferentes episcopados de sucessão apostólica que arrogam a si o genuíno catolicismo. Mas como pode ser católica uma das partes e a outra não, se derivam de um todo católico? Se o todo católico se dividir em duas partes, ambas serão católicas ou nenhuma! É assim que se pode contemplar a problemática envolvendo católicos romanos e ortodoxos. Também não posso conectar o catolicismo ao magistério evolutivo da Igreja, pois este é, obviamente, mutável e não consensual.
Temos, então, de partir do pressuposto que a Igreja Católica é um ser que nasceu pronto e não muda. Em outras palavras, os elementos constitutivos do catolicismo necessariamente existem desde os tempos apostólicos e não podem sofrer variação. Muda-se a forma, não a essência. Compreende-se mais e melhor, sem alteração de conteúdo. 
Definir os elementos constitutivos de um ser não é tarefa simples. Procurar intelectualmente aquilo que constitui o ser é tarefa árdua. Ouso levantar alguns elementos que unem nosso catolicismo ao de Santo Estêvão, sem ter a presunção de, em poucas linhas, esgotar o tema. Longe disso, aliás!
Na próxima postagem, iremos tratar dos elementos distintivos da Igreja Católica.

Autoria: Carlos Alberto Leão
Imagem extraída da internet.




sábado, 23 de fevereiro de 2019

SACRAMENTOS: VALIDADE E EFICÁCIA

Sempre houve na cristandade duas situações: sacramentos válidos e sacramentos eficazes. Um sacramento pode ser válido ou não. Uma vez válido, ele pode ou não ser eficaz. Este artigo pretende discutir sucintamente esta questão tão importante.

Um sacramento consiste em um sinal visível ao qual é acrescida a Palavra de Deus. O Pai une o seu Verbo Eterno, seu bom propósito para o homem, suas estupendas promessas a uma coisa material, que nossos sentidos podem apreender. Enquanto os sentidos captam os sinais e remetem ao intelecto o que significam, o espírito apreende o Verbo eterno de Deus, por meio da fé. Acontece algo na esfera material, envolvendo sentidos e razão. Paralelamente, ocorre outra coisa muito mais sublime no âmbito espiritual, em que espírito e Verbo ocultamente se encontram e unem-se, por meio da fé.
Aos textos e prédicas que chegam pelos olhos e ouvidos ao intelecto, Deus une seu Verbo eterno, alimento da alma. À água que toca o corpo e é rememorada pela mente, Deus une sua graciosa Promessa de salvação. Ao pão e vinho consagrados que ingerimos, Deus une a substância de seu Filho unigênito.
Para que um sacramento seja válido, é necessário, portanto, que ele contenha os sinais instituídos por Deus, sem nenhuma adulteração. Também é fundamental que a Palavra de Deus seja proferida sobre eles. Logo, uma Eucaristia com pão e água, como se verificou entre os encratitas, não é válida, porque não contém os sinais que Deus instituiu. Também não é válida a Eucaristia em que o vinho é substituído por suco de uva. Igualmente, uma vez omitida a Palavra de Deus, ou modificada maliciosamente, também não haverá sacramento.
Uma vez o sacramento seja válido, tanto em seus sinais, quanto no uso da Palavra, resta-nos saber se é ou não eficaz. A eficácia do sacramento depende sempre da fé. O sacramento é uma oferta de Deus que precisa ser aceita, o que se dá mediante a fé. Destarte, o Batismo é eficaz enquanto se crê nele. O mesmo se deve afirmar acerca da Eucaristia. 
Repudiamos veementemente o Ex opere operato (*). A Graça é o conteúdo, a fé é o continente. Deus dá, a fé aceita.
A principal objeção é a suposta ausência de fé nos infantes batizados. Bem, as Escrituras revelam com clareza que não só bebês creem, mas embriões e fetos também. Lemos no Salmo 22: "A ti fui entregue desde o meu nascimento; TU ÉS O MEU DEUS desde o ventre de minha mãe". São João Batista creu ainda no ventre de sua mãe (S. Lucas 1:41). Cristo coloca as crianças como exemplo a ser seguido, certamente não de obras, mas de fé (S. Mateus 18:3-4). De fato, é da fé que procedem as obras que o Senhor elogiou. Logo, os infantes creem, e é com base nessa fé que são batizados. Um dia terão condições de compreender e confessar a fé, mas o mais importante é que creem e são modelos de fé.
Concluindo, a garantia da validade dos sacramentos está na Palavra e nos sinais. Os sacramentos são, por assim dizer, a Graça divina revestida de matéria. Quer se creia, quer não se creia, os sacramentos são válidos quando sobre os sinais corretos se proclama a Palavra de Deus. Entretanto, a eficácia depende da fé. Onde ela não existir, não será possível a apropriação da Graça sacramental.

(*) Doutrina tomista que ensina o sacramento ser eficaz quando executado segundo os preceitos da Igreja, independentemente da fé.

Autoria: Carlos Alberto Leão.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

NÃO AO ABORTO! NÃO À HIPOCRISIA!




Na primeira foto, Pedro com 12 semanas de existência. Na segunda, Pedro com 121 semanas. Em ambas, um mesmo indivíduo, que tem direito à vida. A mesma substância, o mesmo ente.
Com 12 ou com 121 semanas de desenvolvimento, este ser humano depende de sua mãe. Onera-a com inúmeras necessidades. Obriga-a o tempo todo à abdicação de direitos seus. É permanentemente um risco.
De onde, então, conclui-se que com 12 semanas seria lícito matá-lo, se nada mudou de lá para cá? O mesmo ser, a mesma condição, os mesmos trabalhos, a mesma luta, os mesmos riscos, o mesmo medo?
Talvez uma única coisa tenha mudado: se o assassinato fosse com 12 semanas, ninguém ficaria sabendo. Seria possível manter uma APARÊNCIA de justiça. Aliás, é só isto o que as feministas querem: a APARÊNCIA de justiça. Não querem a justiça de fato, tal como ela é. Afinal, não cai bem a pessoas tão evoluídas a acusação de homicídio!
Deseja-se manter a imagem de bondade, enquanto intimamente se pratica todo o tipo de perversidade. Algo que vai de encontro à hipocrisia ou à ilusão do desenvolvimento humano sem a verdade. Em outras palavras, as feministas querem ser boazinhas, mas só até onde os olhos podem enxergar.
Ora, se verdade é somente aquilo que se vê, como os materialistas pretendem, então a verdade se torna uma questão de aparência. E é isso o que temos verificado na prática.


"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois como sepulcros caiados: por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de cadáveres e de toda podridão. Assim também vós: por fora, pareceis justos diante dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e injustiça" (S. Mateus 23:27-28).

Autoria: Carlos Alberto Leão.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

DO FRUTO AO PÃO

Uma das coisas que mais me fascinam na doutrina cristã, que me fazem, inclusive, ver nela plenitude e autossuficiência, é algo muito esquecido hoje em dia: a ideia de recapitulação.
Muito enfatizada pelos pais, sobretudo por São Justino e por Santo Irineu, a recapitulação vem nos ensinar que Deus não só cria, como recria. Ele não só faz, como refaz. Aquilo que o diabo destruiu, Deus reconstrói por misericórdia. Quando se pensou: está tudo acabado! eis que a Divina Providência reapareceu, para restaurar todas as coisas, segundo sua beleza primordial ou de acordo com um padrão muito mais elevado. "Se escondes teu rosto, desfalecem, se a respiração lhes tiras, morrem e voltam ao pó. Mandas teu Espírito, são criados, e assim renovas a face da terra" (Salmo 104/103: 29-30). De fato, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos.


Mas o que Deus refez? É necessário que provoquemos os leitores, com o intuito de chamar a atenção para a ameaça do evolucionismo dentro da Igreja. Quanto é tentador, nos dias de hoje, quando se tem acesso a tanta informação científica, cair no erro de se dar à Criação do Cosmos e do homem uma interpretação alegórica! Eu mesmo já fui tentado a fazê-lo. Até o dia em que percebi que, matando Adão, estaria matando o Segundo Adão. Ao eliminar Eva, estaria eliminando a Segunda Eva. E assim por diante, ao destruir os eventos que ensejaram a corrupção e a morte eterna, é inevitável que também destruiria os eventos que promovem a incorruptibilidade e a vida eterna. Se Adão é uma lenda, também a obediência, morte e ressurreição de Cristo o são. 
Meus amigos, tenhamos sempre diante dos olhos que o diabo, nosso inimigo, não é amador. O evolucionismo é fermento antinomista lançado à massa. Quando se destrói Adão, destrói-se o pecado original. E sem pecado original, não há ocasião para redenção. Cristo, portanto, é reduzido a um mero herói.
Adão e Eva, nossos pais terrenos, pecaram e, por causa disso, acarretaram sobre nós a corrupção e a morte, sujeitando-nos ao poder do diabo. Então foi necessário que Deus, nosso Pai celestial, se encarnasse para obedecer, obtendo assim a nossa libertação. Pela obra do Deus encarnado é desfeita a obra de Adão. Pela obra do Pai celestial é desfeita a obra dos pais terrenos. 
A justiça satisfaz-se a si mesma e em si mesma. Adão não tem maior direito sobre seus filhos terrenos que Deus, sobre seus filhos espirituais. Se a obra de Adão arrasou a humanidade, que dele é gerada, quanto mais não redimirá a obra de Deus aqueles que dele são gerados? Sim, somos gerados por Deus mediante o Santo Batismo.
Se Eva foi seduzida pelo diabo e concebeu a cobiça em seu ventre, temos a Virgem Maria, que obedeceu a Deus e concebeu a salvação de todos os povos. De uma mulher veio a danação universal, de outra veio a salvação. Pela graça divina, refez uma virgem o que a outra destruiu: a Imagem de Deus. Se Eva destruiu a Imagem de Deus em seu ventre, refê-la a Santa Virgem no seu, por obra do Espírito Santo.
Se pelo madeiro da árvore da ciência do bem e do mal entrou o pecado no mundo, do madeiro da cruz vem a redenção. Se da serpente pendurada no madeiro veio a tentação, do homem pendido no madeiro veio o clamor: "Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!" (S. Lucas 23:34). Se pela pregação da serpente veio a cobiça, pela Pregação da cruz vem a fé, com a qual somos refeitos para a vida eterna.
Se Adão e Eva caíram ao ser tentados pelo diabo, Cristo permaneceu de pé. Cristo prevaleceu sobre o diabo no deserto como verdadeiro homem, não segundo sua majestade. A cena do Paraíso foi refeita no deserto, com atores diferentes para o mesmo papel. Um cenário idílico e abençoado e outro, inóspito e maldito, mas dentro deles o homem. Ao assentimento de Adão e Eva, caíram eles e seus filhos terrenos; à resistência de Cristo, elevou-se ele e sua descendência espiritual.
Não há como esgotar os significados do Éden. O que se pode afirmar com certeza é que tudo o que aconteceu no Éden, que levou a humanidade à ruína, foi depois refeito na Judeia. Cada ato mau foi neutralizado por outro bom. Entretanto, muito maior foi o bem que o mau, ou seja, bem mais pródiga foi a reconstrução que a construção. Embora Adão e Eva fossem homens perfeitos, tinham corpo animal que se satisfazia de coisas materiais. O Éden era esplendoroso, porém corruptível, visto que se comia ali (Gênesis 1:30). Todavia, na reconstrução, Deus cria homens espirituais que se satisfazem somente dele. Não mais são criados para uma realidade material e efêmera, mas para uma realidade espiritual, suficiente e eterna, incognoscível e indizível às nossas mentes limitadas, que nada de incorruptível viram.
Alguém poderá questionar: Por que Deus nos fez, sabendo que haveríamos de cair? Quer desgraça maior que a existência humana? Por que Deus permitiu que nossos pais caíssem? Não há uma resposta simples para isso. Mas se contemplamos a superioridade do edifício refeito em relação ao que ruiu, é certo que ficará em nós um sentimento de consolo e até de satisfação. Foi bom haver sido eu destruído, visto que a reconstrução é muito superior ao que fui um dia. Se desgraçado nasci de Adão, muito agraciado nasci de Deus, no dia em que fui batizado! E dia a dia sou refeito sobre os escombros. Dia a dia os escombros são removidos. Dia a dia sou embelezado e glorificado.
Mas voltando a atenção ao que é espiritual e sacia-se unicamente de Deus, quero chamar a atenção para uma das mais delicadas recapitulações: Se pelo alimento da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva caíram em pecado e corrupção, pelo alimento da Eucaristia somos vivificados para a incorrupção e imortalidade. Foi comendo que nossos pais caíram, é comendo que somos reerguidos, não para uma condição passageira, mas para a eternidade. Terreno foi o alimento que nos arremeteu às profundezas do inferno, celestial é o alimento que nos eleva à natureza divina. Aos olhos, pão e vinho, mas ali está a matéria celeste que alimenta os anjos, o Verbo eterno de Deus feito carne. Fez-se carne para absorver nossa carne em sua Divindade. 
A árvore da vida prefigurava Cristo e a Eucaristia. Se os frutos da natureza dessa árvore traziam vida a quem os comesse, hoje a natureza de Cristo nos reanima e imortaliza, ao ser distribuída sob o véu do pão e do vinho. Deveras, muito maior é a reconstrução que a construção! Caiamos com Adão e Eva ao comermos do fruto proibido, para que sejamos reerguidos pelo alimento da Eucaristia!
Quando formos comungar, lembremo-nos que um dia nossos pais se dirigiram ao altar da árvore para comer e, em seguida, morrer. Nós, pela graça de Deus, dirigimo-nos ao altar da cruz para comer e viver. Por muitas vezes, por quantas vezes for celebrada a Eucaristia, é refeita a obra de Adão e Eva no Paraíso. Seus passos se dirigiram ao alimento que os arruinaria, enquanto os nossos se dirigem ao alimento que nos imortaliza e beatifica.
Permita Deus que eu coma e beba a Eucaristia de forma tal que não mais enxergue ou consiga me lembrar dos elementos! Permita Deus que meu corpo se sacie apenas da substância de Cristo. Hoje como pão e vinho insossos, tão insossos quanto a água, tão insossos quanto o nada, ingeridos rapidamente, como que com pressa, a pressa da Páscoa. Amanhã, como visão substancial, ou seja, como visão de mim mesmo, de minha identidade mais profunda.

"Nisto Deus difere do homem: Deus faz, o homem é feito. Aquele que faz é sempre o mesmo e quem é feito tem necessariamente início, meio, aumento e desenvolvimento. Deus faz o bem, o homem recebe o bem. Deus é perfeito em tudo, igual e idêntico a si mesmo, é por inteiro luz, pensamento, substância e fonte de todos os bens, enquanto o homem recebe o progredir e o crescer para Deus. Enquanto Deus é sempre o mesmo, o homem que se encontra em Deus progredirá sempre em direção a Deus. Deus não cessa de beneficiar e enriquecer o homem e o homem de ser beneficiado e enriquecido por Deus" (Santo Irineu, Contra as Heresias, Livro IV).

Autoria: Carlos Alberto Leão.
Imagem extraída da internet.






sábado, 2 de dezembro de 2017

COMER, REZAR E AMAR - PARTE 2

Quando colocamos o cristianismo ao lado do paganismo, fica fácil entender por que o cristianismo se espalhou tão rapidamente pelo mundo, tornou-se a religião majoritária do Império Romano, somente pela natureza de seu discurso, sem uso de armas ou força. Realmente, o cristianismo é mais do que fé, é uma forma muito evoluída de pensar e de viver.
O mundo ocidental tem cada vez mais desprezado suas origens, posiciona-se como quem não precisa de Deus e não deve nada ao cristianismo. Muitas vezes assume uma postura até agressiva perante a cultura cristã. No entanto, por mais que o paganismo esteja ganhando força, ainda consideramos errado não perdoar quem nos ofende, defendemos a igualdade de todos e os direitos humanos, tudo isso que jamais existiria não fosse a introjeção da teologia cristã em nossa mente. Consideramos o perdão, a inclusão e a igualdade como coisas corretas e desejáveis não porque está em nossa natureza pensar assim, mas porque bebemos da fonte da Igreja há dois milênios. Hoje o mundo lança o discurso dos direitos humanos contra o discurso da Igreja, sendo que o discurso dos direitos humanos emergiu do discurso da Igreja. Infelizmente, nossa sociedade perdeu a memória.
Quem leu o texto anterior, que traça o paganismo em linhas gerais, poderá dizer: Você está exagerando, nem todo pagão é assim. De fato, os pagãos que conhecemos são mais ou menos influenciados pela Igreja e por isso assumem posturas um tanto quanto variáveis. A Igreja está no mundo como luz que ajuda a diminuir as trevas.
O Deus dos cristãos não é impessoal como o Deus pagão. É um Deus que ama, busca, perdoa e indigna-se, como se fosse pessoa humana. Por fim, os cristãos ensinam que Deus é verdadeiramente humano, de forma que todos os sentimentos humanos encontram em Deus sua matriz. Nós nos alegramos porque Deus se alegra, entristecemo-nos porque Deus se entristece, sorrimos porque Deus sorri. Deus é a fonte da humanidade. Quando Deus diz consigo mesmo: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança", ele está anunciando a sua encarnação. A nossa humanidade é imagem da humanidade de Deus. O que nos torna humanos é imagem daquilo que torna Deus humano. 
O Deus dos cristãos é relacional. Primeiro consigo mesmo, pois é uno em sua substância, trino quanto ao número de pessoas. Portanto, o Deus dos cristãos é uma comunidade perfeita. Depois, é relacional fora de si, ao tratar com o homem. Mas como poderia Deus tratar com o homem se não fosse também humano? Por isso ele se faz homem para falar ao homem.


A encarnação de Deus tem enormes implicações na cosmovisão. Se Deus é homem a tratar com homens, somos chamados para fora de nós mesmos, para uma aliança visível. O cristão não tem uma espiritualidade introspectiva, porque seu Deus está de fora e chama-o à responsabilidade e à comunhão. Para o cristão, o Outro é o próprio Deus, com quem se relaciona o tempo inteiro. Portanto, a humanidade de Deus nos permite localizá-lo no homem.
Ao localizar a humanidade de Deus no homem, o cristão é dissuadido a encontrar Deus em sua natureza, mas também no Outro. Por conseguinte, a dignidade humana é revelada com clareza, tanto a nossa, quanto a do Outro. Além disso, a humanidade de Deus torna toda humanidade preciosa, seja ela a humanidade de um embrião, de uma mulher, de um negro, de um escravo. Ninguém no cristianismo é superior a ninguém, mas todos somos superiores ao restante da criação e muito dignos, essencialmente dignos, porque Deus é homem. Qualquer crime contra a humanidade é um crime contra Deus. Tudo o que louva e dignifica a humanidade, igualmente louva e dignifica a Deus.  
Por pensar assim, o cristão cuida de si mesmo, de seu corpo, de tudo aquilo que o torna humano, com zelo religioso. É disso que vem a castidade, o pudor, a moderação e a temperança. Ele não é motivado a comportar-se assim por regras, mas por saber que Deus é homem, que ele é homem e que lhe cabe cuidar do que é divino. Sua motivação está em sua configuração com Deus.
Por outro lado, o cristão cuida do próximo com o mesmo zelo, porque entende que Deus é homem, que o próximo também é homem e que é seu dever cuidar do que é divino. Ele sabe que está prestando um verdadeiro culto a Deus quando "cultua" seu próximo. Ele aprendeu a configurar o Outro a Deus.
Por ter um Deus relacional, o cristão obedece ao simplesmente relacionar-se com seu Deus. Não está preso a regras, mas ao relacionamento da fé. Tudo o que faz e deixa de fazer, é por amor a Deus, mas a um Deus que é homem e que está no homem. A norma vem de fora, vem do Deus encarnado, não é algo subjetivo. A obediência a essa norma não é interesseira, é consequência do relacionamento. 
O cristão não tem um Deus incapaz de amá-lo ou que o ama de maneira metafórica. Seu Deus o ama como um homem perfeito ama. Ele então se sente constrangido a retribuir esse amor com seu amor humano. Mas a quem direcionar esse amor? Ao homem, ou seja, a si mesmo e ao Outro, que ele aprendeu a chamar de "próximo" ou "semelhante". O Outro é tão humano quanto eu, meu semelhante na humanidade. O Outro é tão humano quanto Deus, seu semelhante na humanidade. Portanto, eu e o Outro somos o objeto do culto, não o intermédio ou instrumento.


O Deus cristão é um Deus-Unidade que busca a unidade, é um Deus-Comunhão que busca a comunhão. Nunca haverá no mundo uma sociedade como a Igreja e seu Deus. A Igreja não é só uma sociedade política, como Israel e o Islã. A Igreja é um organismo com seu Deus. Ela recebe e comunga o que é próprio de seu Deus. Deus se prolonga e se universaliza por meio da Igreja. Como organismo, a Igreja também se recebe e se comunga. Em qual religião pagã encontraríamos algo semelhante ao Batismo cristão, que sepulta e ressuscita todos os cristãos com seu Deus? Ou com a Eucaristia, em que a Igreja come e bebe seu Deus e a si mesma? A Igreja mergulha em seu Deus e em si mesma ao celebrar seus mistérios.
Muito significativo é que a Igreja veja seu Deus e o receba por meio dos sacramentos. Ela não possui ritos simbólicos, tudo é real, tudo é comunhão com Deus e consigo mesma. Tudo é concreto, visto que seu Deus é concreto.

"Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos AMEI, que também vós AMEIS uns aos outros" (S. João 13:34).

Com essa fala de Jesus, o Deus dos cristãos, concluo este panorama singelo da cosmovisão cristã. Qualquer pessoa honesta não deixará de considerar o impacto dessa cultura na preservação da sociedade. E não há outra forma de a sociedade escapar ao colapso, senão aprendendo com os cristãos sobre a relevância e dignidade do Homem e do Outro, enfim, de si mesma.

"É, pois, com um mesmo amor que amamos a Deus e ao próximo, mas amamos a Deus POR DEUS, e ao próximo POR CAUSA DE DEUS" (Santo Agostinho, A Trindade).




Autoria: Carlos Alberto Leão.
Imagem extraída da internet.